Todas as fases de um projeto apresentam desafios, mas nenhuma delas se compara ao começo da criação. Transformar sonhos em projetos, projetos em protocolos e protocolos em realidade é um trabalho quase demiúrgico. Na maioria dos casos, os anseios são bem maiores do que as condições e em todos os casos, as condições reais só são efetivamente descobertas em movimento, com a coisa já acontecendo. Não se passa do business plan para o dia a dia da operação como quem baixa um pacote de dados. Nessa relação entre o ponto de chegada e o ponto de partida, muita coisa começa a ganhar forma enquanto outras vão ficando pelo caminho. Conosco não foi diferente.
Não, a Um Balalum não começou fabricando as próprias roupas. No início, éramos uma loja que selecionava e revendia peças produzidas por parceiros comerciais. Muitos deles eram excelentes. Fabricavam produtos bonitos, bem acabados, visualmente encantadores. Roupas que, à primeira vista, pareciam traduzir muito bem aquilo que se pode esperar de uma peça feita para bebês: delicadeza, graça, suavidade, cuidado.
Mas, com o tempo, uma sensação começou a se repetir e ganhar forma. As roupas que comprávamos e vendíamos eram bonitas, mas muitas vezes pareciam responder mais às necessidades de expressão dos adultos do que às necessidades sensíveis dos bebês. E, para nós, essa diferença é muito importante. Porque existe uma distância enorme entre uma roupa bonita para ser vista e uma roupa boa para ser vivida por um corpo que ainda está começando a se organizar.
Para os adultos, uma peça pode ser uma composição estética, uma escolha de estilo ou uma forma de comunicar gosto, afeto, ocasião. Conforme nossa identidade pessoal vai amadurecendo, vestimos para expressar algo sobre nós, nosso pertencimento a uma classe, uma tribo ou uma religião. Mas com o bebê, a experiência é outra. Antes de ser aparência e expressão, a roupa é ambiente, é contato, e como tal pode preservar uma continuidade delicada de cuidados ou introduzir pequenas interrupções desnecessárias na rotina dos primeiros meses.
Essa percepção da roupa como ambiente, foi deixando de ser apenas um conceito em nossas cabeças, e começou a ganhar forma e densidade aos poucos, no contato diário com pais e mães que compartilhavam suas experiências conosco através das nossas redes sociais. Famílias que chegavam com dúvidas, incômodos, observações, pequenas críticas e descobertas muito concretas da vida com um bebê. Foi assim, graças ao aporte cuidadoso e assertivo de mães e pais preocupados com o bem-estar dos seu bebês que a Um Balalum começou a entender o seu lugar no mundo
Uma mãe dizia que determinada peça era linda, mas difícil de vestir, ou por que uma roupa tão pequena precisava ter tantos detalhes. Outra comentava que a cintura marcava demais. Outra percebia que o bebê se irritava quando a roupa precisava passar pela cabeça. Outra dizia, ainda, que, de madrugada, simplificar a troca faria toda a diferença. Esses comentários não eram reclamações isoladas. Eram pistas, indícios de que havia um descompasso entre o modo como muitas roupas eram pensadas e o modo como elas eram vividas na rotina real de um bebê.
Nós sempre levamos esses comentários e sugestões muito à sério e por isso levávamos esses retornos aos nossos fornecedores. Reportávamos os feedbacks, explicávamos as demandas e sugeríamos pequenos ajustes. Mas, na maior parte das vezes, esses retornos não alteravam o processo criativo de quem produzia as peças. Os parceiros seguiam fazendo roupas bonitas, mas não conseguiam compreender o que significa conceber a roupa como parte do ambiente do bebê. E foi assim, levando nossos clientes a sério, que nós começamos a entender que o nosso caminho precisaria ser outro. Não queríamos apenas vender roupas bonitas. Queríamos desenvolver roupas a partir da perspectiva do bebê e foi por isso que decidimos inaugurar a nossa própria fábrica.
Fazer roupas na perspectiva do bebê
Criar a fábrica da Um Balalum não foi apenas uma decisão operacional. Foi uma decisão de linguagem, de produto e de cuidado. Queríamos ter condições de transformar em modelagem aquilo que vínhamos aprendendo na escuta das famílias. Queríamos que um comentário de mãe pudesse se transformar em ajuste de peça. Que uma dificuldade observada na rotina pudesse orientar uma abertura, uma cintura, uma costura, um acabamento. Que o produto não nascesse apenas de uma tendência estética, mas de uma pergunta mais simples porém decisiva: Isso facilita ou interfere?
Foi essa pergunta que passou a orientar o nosso desenvolvimento. Uma peça pode ser bonita e ainda assim dificultar a troca, pode ser delicada e ainda assim apertar o ventre, pode parecer encantadora na foto e ainda assim exigir do bebê uma adaptação excessiva. Enfim, pode ter detalhes que agradam aos adultos, mas que nada acrescentam ao corpo que será vestido.
Quando começamos a olhar para a roupa a partir dessa perspectiva, muita coisa mudou. O bebê deixou de ser pensado como um pequeno suporte para uma ideia adulta de beleza e passou a ser o centro da criação. Não o bebê imaginário, envolto em babados e tules, mas o bebê real: seu corpo, sua pele, seu movimento, seu sono, sua irritabilidade e sua imaturidade motora. Sua dependência absoluta dos adultos que o sustentam, manejam, trocam, vestem e acolhem.
Nos primeiros meses, a roupa é mais do que um adorno ou um adereço, ela participa do ambiente que envolve a vida em formação. Por isso, ao desenvolver uma roupa para o bebê é preciso perguntar como aquela roupa entra na rotina. Como ela toca a pele, como abre e como fecha, como veste e como acompanha o movimento que está se ensaiando. Enfim, como se comporta no colo, no berço, no carrinho, na madrugada, depois da mamada e durante a troca. Por isso, uma boa roupa de bebê não é aquela que chama mais atenção para si, mas é aquela que permite que o cuidado aconteça melhor e sem grandes interrupções.
Um processo feito de escuta
Desde que esses aspectos se revelaram essenciais para a nossa visão sobre a roupa no começo da vida, nosso processo de criação passou a funcionar como uma conversa permanente. De um lado, existe a nossa equipe: pessoas envolvidas com modelagem, produção, escolha de tecidos, acabamento, atendimento, fotografia, comunicação e gestão do produto. Gente que observa, testa, ajusta, erra, corrige e volta a pensar.
Além da moda - do corte e da costura - nossa equipe procura se nutrir de referências da pediatria, da psicologia infantil, das teorias do desenvolvimento e de tudo aquilo que ajuda a compreender o bebê não como um adulto pequeno, mas como alguém em pleno processo de amadurecimento.
Mas esse processo jamais se completaria sem o outro lado. De nada adiantaria o estudo e o desenvolvimento sem a escuta real daqueles que também vivenciam a rotina concreta do dia a dia com os bebês. Sem o apoio, feedbacks, críticas e sugestões das famílias, a Um Balalum não passaria de um conceito vago.
Afinal, são os pais e as mães que vivem o dia a dia com os bebês que nos mostram, muitas vezes com muito mais precisão do que qualquer tendência de moda, aquilo que uma peça precisa resolver. São eles que percebem quando uma modelagem facilita a rotina, quando uma cintura incomoda, quando um tecido é adequado, quando uma peça continua vestindo bem mesmo depois de muitas lavagens, quando uma estampa conversa com a delicadeza da infância sem transformar o bebê em vitrine, e, fundamentalmente, quando um detalhe é bonito, mas inútil.
Esse canal de troca nos ajuda a desenvolver novas modelagens, novas estampas, novas coleções e novos ajustes de produção. Não porque a criação seja simplesmente terceirizada às famílias, mas porque uma roupa de bebê só pode ser realmente compreendida quando passa pela vida concreta. É nesse encontro entre elaboração e uso real que as nossas peças vão tomando forma.
O bebê no centro da fábrica
Há ainda outra dimensão importante nesse processo. Nós também vivemos de perto aquilo que criamos. A Carmelinha, nossa bebê amada, nos acompanha nesse caminho de um jeito muito especial. Com ela, muitas ideias deixaram de ser apenas hipóteses de desenvolvimento e passaram a ser experimentadas no corpo vivo de um bebê real, em uma rotina real, com necessidades reais.
Isso tudo porque a roupa que parecia simples no desenho precisa funcionar na hora da troca. A abertura que parecia suficiente precisa funcionar bem quando o bebê está cansado. A cintura que parecia confortável precisa respeitar o ventre. O tecido que parecia macio precisa continuar agradável no uso. Enfim, a peça que parecia bonita precisa permitir movimento, sono, colo, cuidado.
A presença da Carmela nos lembra todos os dias que uma roupa de bebê não pode ser pensada apenas no momento em que é criada. Ela precisa ser pensada no momento em que será vivida. Porque, quando o bebê entra no centro da fábrica, a criação deixa de perseguir apenas novidade e passa a perseguir ajuste fino. Não no sentido de uma perfeição impossível, mas no sentido de uma aproximação contínua entre aquilo que produzimos e aquilo que o bebê realmente precisa receber.
Nenhuma linha a mais
Ao longo dos anos, fomos entendendo também que criar e costurar roupas para bebês é, muitas vezes, aprender a retirar. Retirar o que aperta, o que atrapalha, o que exige demais. Retirar o detalhe que existe apenas para agradar ao olhar adulto, retirar a linha que não precisa estar ali. Isso não significa abrir mão da beleza, significa colocar a beleza no lugar certo. Uma roupa de bebê pode e deve ser bonita. Mas sua beleza não deveria nascer do excesso. Deveria nascer da harmonia entre forma, função e cuidado.
Por isso, na Um Balalum, uma peça bonita é aquela que respeita o corpo que veste, que facilita a rotina de quem cuida e que não interrompe desnecessariamente o bebê. É por isso que falamos tanto em ambiente, em excesso, em enxoval e em cuidado. Não são temas separados da nossa produção. São o vocabulário que nos ajuda a explicar por que criamos as peças que criamos.
Em julho, mês de aniversário da Um Balalum, queremos contar mais sobre esse percurso. As transformações que fizemos, os ajustes que incorporamos, as escolhas que abandonamos, as conversas com clientes e famílias que nos ajudaram a melhorar. Porque a nossa história não é apenas a história de uma marca que passou a fabricar suas próprias roupas. É a história de uma marca que decidiu mudar o ponto de partida da criação.
Em vez de perguntar primeiro o que seria mais bonito para vestir um bebê, começamos a perguntar o que seria mais delicado para receber seu corpo. E é exatamente isso que, desde então, seguimos tentando fazer: roupas bonitas, sim. Mas bonitas porque cuidam. Bonitas porque facilitam. Bonitas porque não interferem no ritmo dos primeiros meses. Bonitas porque começam no lugar onde, para nós, toda roupa de bebê deveria começar: na perspectiva do bebê.
