Montar o enxoval é uma das primeiras formas de cuidar de alguém que ainda não conhecemos, mas que já começamos a amar profundamente. Talvez por isso seja também uma das tarefas mais carregadas de ansiedade de todo o período pré-natal. Antes mesmo do bebê nascer, já estamos tentando imaginar o que ele vai precisar, que tamanho vai servir, como será seu corpo, sua rotina, seu sono, e por aí vai.
Isso acontece porque quando estamos montando um enxoval, estamos comprando roupas para um corpo que ainda não seguramos nos braços e escolhendo peças para uma pessoa que ainda não olhamos nos olhos. Isso significa que, em todos os casos, estamos tentando prever ou antecipar necessidades que são reais mas que ainda não se manifestaram.
O enxoval, na fronteira entre a antecipação e a espera, possui uma poesia particular. Afinal, é um modo de abrir espaço para alguém que está chegando para ocupar um lugar precioso em nossas casas e em nossos corações. Cada peça dobrada, cada gaveta organizada, cada pequena escolha feita antes do nascimento participa desse gesto de preparação.
Mas, nem tudo são flores e poesia. Há também algo de profundamente inquietante nessa espera. Porque o enxoval nos coloca diante de uma pergunta impossível: como escolher, agora, aquilo que será suficientemente bom para um bebê que ainda não conhecemos? Nos casos de maternagem de primeira viagem essa dúvida é ainda mais inquietante e é nesse intervalo entre o amor e a incerteza que a ansiedade se instala.
Será que comprei pouco? Será que comprei demais? Será que esse tecido é adequado? Será que essa peça vai apertar? Será que vou conseguir trocar o bebê de madrugada sem acordá-lo completamente? Será que preciso de mais bodies, mais macacões, mais mantas, mais fraldas, mais opções, mais garantias? A lista cresce com facilidade. E, quando percebemos, o enxoval deixa de ser uma preparação para o cuidado e começa a se parecer com uma tentativa de controlar o imprevisível.
Mas talvez exista outro modo de olhar para essa tarefa.
Em vez de pensar no enxoval como acúmulo de coisas, podemos pensá-lo como um conjunto de cuidados antecipados. Não uma coleção de peças, nem uma vitrine em miniatura e muito menos uma tentativa de prever todos os cenários possíveis, mas uma pequena estrutura material preparada para que os primeiros cuidados aconteçam com mais delicadeza, menos ruído e menos interferência.
Antes do enxoval, o ambiente
Aqui na Um Balalum, falamos bastante sobre o ambiente do bebê. Não apenas o quarto, a decoração, a iluminação ou os objetos escolhidos para recebê-lo, embora tudo isso também importe. Falamos do ambiente em um sentido mais profundo, entendendo por ambiente o conjunto dos cuidados que chegam ao bebê antes mesmo que ele possa reconhecê-los como algo vindo de fora.
Nos primeiros meses, o bebê ainda não separa claramente o dentro e o fora. Ainda não possui uma experiência integrada de si e ainda não percebe o mundo como uma realidade exterior organizada, composta por pessoas e objetos independentes dele. Antes de conhecer o mundo, ele precisa encontrar uma continuidade suficientemente boa de cuidados. Isso é fundamental para o seu amadurecimento e desenvolvimento sadio.
Para nós, adultos, uma roupa é muitas vezes uma escolha estética, uma preferência de estilo, uma composição bonita para determinada ocasião. Para o bebê, antes de ser aparência, a roupa é o ambiente que toca, envolve, acompanha ou restringe, facilita ou dificulta. Por isso, quando pensamos no enxoval a partir da perspectiva do bebê — e não apenas a partir da ansiedade adulta de deixar tudo pronto —, a pergunta muda. Não se trata apenas de perguntar quantas peças comprar, mas que tipo de cuidado essas peças tornam possível?
O excesso também pode entrar pela gaveta
No texto anterior publicado aqui no Blog, falamos sobre estímulos e excessos. Falamos da tentação de oferecer sempre mais: mais brinquedos, mais sons, mais imagens, mais atividades e etc.. Falamos também do risco de confundir cuidado com acúmulo, como se o desenvolvimento do bebê dependesse de uma sucessão constante de intervenções.
Com o enxoval, algo parecido também pode acontecer. A ansiedade diante do desconhecido pode nos levar a acreditar que mais opções significam mais segurança. Mas nem todo acréscimo ajuda. Algumas escolhas apenas aumentarão o número de variáveis para serem equacionadas em um momento em que os adultos já estão cansados. Outras tornarão a rotina mais trabalhosa. Outras ainda acrescentarão pequenos incômodos ao corpo do bebê: uma gola difícil, uma abertura estreita, uma costura mal posicionada, uma cintura que comprime.
O excesso, no enxoval, nem sempre aparece como quantidade. Às vezes aparece como complexidade. Uma peça difícil de vestir, uma roupa que precisa passar pela cabeça de um recém-nascido, um tecido que não acompanha o movimento.
É por isso que um enxoval suficientemente bom não é necessariamente o maior enxoval possível. É, antes, aquele que reduz atritos, que facilita o manejo, que respeita o corpo em formação. O bom enxoval é aquele que diminui pequenas interrupções e permite que o cuidado aconteça com mais fluidez.
O enxoval como setting do cuidado
Há uma palavra bastante usada na clínica terapêutica que nos ajuda a pensar o enxoval: setting. O setting não é apenas um espaço físico. É o conjunto de condições que torna possível uma experiência. Uma forma de organizar o tempo, o ambiente, os objetos e a presença para que algo possa acontecer sem ser constantemente interrompido. Podemos pensar o enxoval dessa maneira, como uma espécie de setting material dos primeiros cuidados.
Antes do bebê nascer, não sabemos exatamente como serão as noites, o ritmo das mamadas, as trocas, o sono, o corpo, o temperamento, as pequenas preferências que só se manifestarão depois, ao longo do cotidiano. Mas podemos preparar algumas condições. Mesmo longe de querer, ou de poder, controlar o imponderável, podemos escolher peças que não dificultem o manejo, podemos preferir tecidos que respeitem a pele e, fundamentalmente, podemos organizar uma base suficiente para que a rotina não dependa de improvisos constantes.
Isso acalma bastante o bebê, mas também pode acalmar, ainda mais, a mãe de primeira viagem. Porque através de um critério de escolha seguro não é mais preciso prever tudo, nem, muito menos, é preciso comprar tudo. É preciso apenas preparar um conjunto de escolhas suficientemente ajustadas para que, quando o bebê chegar, o cuidado possa acontecer com menos ruído. O enxoval, então, deixa de ser uma tentativa de controlar o futuro e passa a ser uma forma de acolher o começo.
Quando a modelagem também cuida
Na Um Balalum, aprendemos a pensar nas roupas do bebê a partir desse lugar. Quando vamos desenvolver um modelo, nós não começamos perguntando apenas se a peça ficaria bonita em uma foto. Perguntamos, antes, como ela chegaria ao corpo do bebê, como participaria da troca; como acompanharia os movimentos que estão se formando; como ajudaria a mãe e o pai em momentos muito concretos da rotina. Ao longo dos anos, muitas escolhas de modelagem nasceram dessa mesma pergunta simples: isso facilita ou interfere?
O culote com cintura em ribana, por exemplo, nasceu de uma recusa muito concreta: a de comprimir o ventre do bebê com um elástico desnecessário. Nos primeiros meses, o corpo ainda está se organizando, o abdômen é sensível, as trocas são frequentes e o bebê passa longos períodos deitado, mamando, dormindo, se movimentando. A roupa não deveria marcar, apertar ou impor uma contenção dura para permanecer no lugar.
Por isso escolhemos adaptar a cintura do culote às necessidades do corpo do pebê. A ribana permite ajuste sem compressão, sustentando sem prender e acompanhando sem invadir. É uma pequena decisão de modelagem, mas que envolve uma grande opção pelo cuidado.
O body kimono segue a mesma lógica. Vestir um recém-nascido pode ser uma experiência delicada. No começo da vida, o bebê ainda sustenta pouco a cabeça e seus movimentos são imaturos, seu corpo é inteiramente manejado pelos adultos. Uma roupa que precise passar pela cabeça ao vestir ou que exige manobras excessivas pode transformar uma ação simples como a troca de roupas em uma pequena interrupção do conforto e bem-estar do bebê. A abertura lateral e completa do kimono facilita esse momento. A peça se abre para receber o bebê e não exige que o corpo se adapte à roupa de maneira brusca. Isso permite vestir com mais calma, mais controle, menos atrito.
O cuidado aparece justamente aí: não na promessa grandiosa, mas na redução discreta de uma dificuldade cotidiana.
O macacão com zíper também nasceu dessa atenção ao uso real. Quem já trocou um bebê de madrugada sabe que, à noite, cada gesto importa. A luz costuma ser baixa, o adulto está cansado e o bebê talvez esteja sonolento. Nesses casos, a troca precisa ser rápida e fácil para poder acontecer sem transformar completamente o sono do bebê em vigília da família. Uma abertura mais simples pode fazer toda a diferença. Não porque o zíper seja, por si só, uma grande invenção, mas porque ele reduz passos, etapas e diminui o tempo da troca enquanto facilita o manejo, ajudando a preservar a continuidade do sono.
Nenhuma linha a mais
Quando dizemos que a roupa participa do ambiente do bebê, estamos dizendo algo muito simples, mas, ao mesmo tempo, muito exigente. Estamos dizendo que para o recém-nascido, cada escolha importa. O tecido importa; a abertura importa; a cintura importa; a costura importa; o acabamento importa e a quantidade de detalhes importa.
Não porque o bebê precise de peças perfeitas, mas porque seu corpo recebe o mundo antes mesmo que ele possa compreendê-lo. Por isso, uma roupa deixa de ser apenas uma roupa quando toca um corpo que ainda está começando a se organizar.
É nesse sentido que o enxoval não deveria ser pensado como um acúmulo ansioso de objetos, mas como um conjunto delicado de cuidados. Isto é, uma maneira de preparar, antes da chegada do bebê, algumas das condições materiais que vão sustentar os primeiros dias.
É esse o caminho que tem conduzido a Um Balalum ao longo desses anos.
A cada ajuste de modelagem, a cada mudança de coleção, a cada conversa com clientes e famílias, fomos aprendendo que uma boa roupa de bebê não é aquela que chama mais atenção para si. É aquela que permite que o cuidado aconteça suficientemente bem.
Em julho, mês de aniversário da marca, vamos contar um pouco mais sobre esse percurso: as transformações que fizemos, as escolhas que abandonamos, os detalhes que ajustamos e as conversas que nos ajudaram a chegar até aqui. Porque, para nós, desenvolver uma peça nunca foi apenas desenhar uma roupa. Foi tentar compreender de que maneira uma roupa pode participar do ambiente do bebê, facilitando o desenvolvimento e a rotina. Tendo a certeza de que o bom enxoval não se baseia na promessa de que tudo estará sob controle, mas na delicadeza de preparar um começo com menos excessos, menos interferências e mais cuidado.
