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Este é o primeiro texto da nossa série sobre cuidados e desenvolvimento, inspirada na obra de Donald Winnicott. Mais do que uma linha editorial, essa série expressa a concepção da Um Balalum sobre os primeiros meses de vida do ser humano — uma concepção que orienta toda a nossa produção, do conteúdo aos produtos. Para acessar os outros textos, clique aqui.
Por Marcelo de Oliveira Lopes
No início, não há dois.
Há calor, ritmo, respiração compartilhada. Há um corpo que sustenta outro corpo sem que isso ainda seja vivido como “sustentar”. Há um mundo que acontece sem ser percebido como mundo.
Não estamos aqui descrevendo qualquer forma de amor. Antes, estamos falando daquela relação que fundamenta o amor em todas as suas formas. Estamos falando da relação mãe-bebê em seus primeiros dias.
Tomando por base os trabalhos de Donald Winnicott — pediatra e psicanalista inglês — podemos chamar essa relação de simbiose, desde que não a compreendamos como fusão romântica ou dependência patológica. Para Winnicott, não se trata de confusão, mas de continuidade. Simbiose não significa que o bebê esteja fisicamente acoplado à mãe o tempo todo; significa apenas que ele ainda não sabe que ele não é o ambiente que o envolve.
Nesse começo, a vida não se apresenta como desafio. Ela simplesmente acontece. E é muito importante que seja assim. Na experiência inicial do bebê, o mundo não é externo. O mundo responde sem intervalo: o choro encontra braços; a fome encontra leite; o desconforto encontra colo. Não por eficiência, nem por perfeição, mas através de uma presença suficientemente ajustada. É isso que torna a simbiose vital: o bebê ainda não precisa se adaptar ao mundo porque, por um tempo, o mundo está sendo adaptado a ele.
Essa adaptação não é total, nem eterna — ainda bem. Ela é temporária, frágil, falível. Mas é nela que se funda algo essencial: a sensação de que existir vale a pena. É nessa experiência primordial de cuidado que o bebê começa a sentir que pode confiar — confiar no mundo, no outro e, mais tarde, em si mesmo.

Winnicott nos lembra de algo profundamente contraintuitivo: no início, o bebê precisa viver a ilusão de que ele próprio cria aquilo que o satisfaz — e, portanto, de que ele é o ambiente. Essa ilusão sustenta o gesto espontâneo. Protege o impulso de existir sem medo de colapso. Antes de aprender que o mundo é outro, o bebê precisa sentir que o mundo o acolhe.
Nessa chave de leitura, a simbiose é mais do que a visão do bebê sobre a realidade. Não se trata de uma questão cognitiva, mas existencial. A simbiose inicial - quando o bebê não percebe distinção entre si mesmo e o ambiente - é uma espécie de solo. Um terreno — fundamento — a partir do qual a individualidade poderá, um dia, emergir. Sem esse solo inicial, a separação do ambiente não emancipa, traumatiza.
Com o passar dos meses, aos poucos, quase imperceptivelmente, algo muda no universo ontológico do bebê. O mundo já não responde com a mesma precisão. Há pequenos atrasos. Pequenas falhas. Pequenas ausências. Uma teta quando não há fome; uma fome quando não há teta. E isso é bom. Na verdade, é fundamental.
É nesse intervalo delicado que o bebê começa a perceber que há um “eu” e um “não-eu”. Mas essa descoberta só é possível porque, antes, houve continuidade suficiente para suportar a ruptura. Só quem foi sustentado pode começar a se sustentar. Dessa maneira, a simbiose não impede o surgimento do sujeito. Ela o torna possível.
Talvez o ponto mais radical de Winnicott seja este: o cuidado inicial não se mede por intenções, discursos ou ideais. Ele se mede pela capacidade de não interferência e de presença confiável. Não se trata de fazer tudo. Trata-se de fazer o suficiente. Suficiente para que o bebê não precise reagir ao mundo antes de estar pronto para existir nele.
É aqui que a simbiose encontra seu limite — e seu sentido. Ela não se prolonga indefinidamente. Ela não se cristaliza. Ela se desfaz no tempo certo. Quem torna isso possível não é uma mãe perfeita, mas uma mãe suficientemente boa: alguém que sustenta, falha, repara e, pouco a pouco, permite que o mundo apareça como mundo.
Sobre o autor
Marcelo de Oliveira Lopes é doutor em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador independente nas áreas de infância, sociedade e desenvolvimento. É fundador da Um Balalum, onde investiga as relações entre ambiente, cuidado e os primeiros meses de vida.